Pirenópolis
Nascida como arraial de mineração em 1727, Pirenópolis estabeleceu-se como entreposto comercial. As relações político-econômicas da época mantinham separadas as classes sociais e reproduziam esta relação em produções culturais eruditas sustentadas pelas classes abastadas.
A zona rural, ao contrário, desenvolveu-se em torno da cultura de mutirão, que referendava o cotidiano das famílias provenientes em boa parte de Minas Gerais e Bahia. Da mesma maneira, a cultura dos quintais se desenvolvia nas casas pobres da zona urbana. As culturas populares garantiam sua subsistência e sustentabilidade por meio de relações solidárias de produção econômica alimentadas por expressões culturais de giro, como os bailes de mutirão, as Folias, as rezas de terço e Presépio, os teatros populares e as turmas de mascarados.
Nas culturas de mutirão e dos quintais, educação, trabalho e religiosidade formavam uma tríade sagrada de aprendizagem natural e cotidiana. Os pais e avós eram os educadores legítimos de todos os jovens e crianças, o que garantia as relações de respeito, preservação e continuidade dos saberes ancestrais.
A partir da década de 50 do século XX, o município renasce no cenário nacional com a chegada de novos moradores vindos de diversos locais do país e do estrangeiro. A valorização do patrimônio natural e cultural local incentivou o comércio e o turismo na região, atraindo as populações rurais para a zona urbana, imprimindo novas características culturais à cidade e ocupação desordenada dos bairros periféricos.
Se por um lado esse deslocamento ampliou as possibilidades econômicas locais, ampliou também os desequilíbrios sociais. O bairro do Bonfim, por exemplo, o mais populoso da cidade atualmente, expandiu-se rapidamente com a construção de casas populares e as relações comunitárias tornaram-se frágeis e perderam espaço de convívio, tanto físico quanto emocional. Os tempos de fartura chegaram ao fim e a nova realidade desta população passou a ser a pobreza. A atividade econômica mais rentável na cidade vem sendo, por muitas gerações, a extração mineral nas pedreiras da região, atividade insalubre, predatória e nem sempre estável, caracterizando-se, no entanto, como única opção de renda para as famílias, seguida mais recentemente pelo turismo.
As manifestações populares, no entanto, são pouco valorizadas como exercício de convívio e instrumento de educação e cidadania e apesar do imenso potencial criativo e riqueza cultural, a preservação destes saberes e fazeres tradicionais tem sido insuficiente para tirar a comunidade da situação de vulnerabilidade e risco social, acarretando em baixa auto-estima, restrição profissional, índices altos de violência, prostituição, consumo de drogas, analfabetismo e alfabetismo funcional.